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Resenha de Filme: Um Truque de Luz

Em 13 de fevereiro de 1895 os franceses Auguste e Louis Lumière patentearam o cinematografo, primeiro equipamento que serviria de base para a evolução do cinema. Juntos com o também francês Georges Méliès, um ilusionista nato, são considerados os precursores do que hoje chamamos de sétima arte. No entanto, se para uma imensa maioria tal advento "mágico" traria novas perspectivas em relação a entreter plateias, para outros, significou a morte de um sonho. Isso porque antes do patenteamento do já citado cinematografo, muitos artesões, em sua maioria fotógrafos, procuraram conceber inúmeras maneiras de capturar - ou emular - imagens em movimento. Alguns curiosos modelos de mecanismos colocavam em sério risco até mesmo a integridade física de seus destemidos manuseadores. 

E o tema do encantador documentário Um Truque de Luz é a utopia não realizada desses imaginativos pioneiros. Para ilustrar com eficácia seu filme, o diretor Wim Wenders se volta para a atraente história dos irmãos Skladanowsky. Também alemães como o diretor, tinham como líder e inventor, Max. Sujeito apregoado as invenções - em sua maioria de ordem imagética -, foi responsável pela criação de um equipamento denominado bioscópio. Diferente do "modernoso" cinematografo dos Lumière (que podia captar até um minuto de imagem se movendo), o bioscópio era muito mais rústico e artesanal. Entretanto, ainda não propriamente um captor de imagens - Max Skladanowsky batia fotos e depois as montava de forma a reproduzirem movimentos -, tal instrumento era suficientemente capaz de iludir e arrebatar plateias. Na época se fizeram notar pois conseguiram lançar o bioscópio cerca de vinte sete dias antes do cinematografo.

Se todo o desenvolvimento fosse feito de uma forma mais tradicional, calharia de Um Truque de Luz servir muito mais de registro do que algo a ser verdadeiramente admirado pelo teor cinematográfico. Ciente da dificuldade de remontar fatos tão remotos, Wenders faz a história surgir a partir dos depoimentos de uma das filhas viva de Max, Lucie Hürgten-Skladanowsky, então uma senhora de 91 anos. E para tal, é criado um filme dentro do documentário, onde o ator Udo Kier assume o papel de Max Skladanowsky. Mirando sempre essa época do qual o filme trata, as imagens surgem mudas, em preto e branco e apoiadas em uma trilha sonora singela. Junto as cenas, Lucie narra boa parte dos fatos, por vezes se revezando com o próprio Kier e uma atriz mirim que faz sua irmã mais velha, Gertrude, colaboradora costumeira do pai nas montagem dos filmes.

Não somente restringidos ao filme dentro do filme, os personagens ganham a sala de entrevistas. Ora ajudam Lucie a lembrar dos fatos ora servem de indicativo do decorrer da narrativa. Além de ser um artificio cativante, promove uma nostalgia capaz de comover a audiência. São cenas onde acompanhamos todo os detalhes do aparato artesanal. A captação bruta das fotos, a montagem das sequências feitas com ilhoses de roupas, a trilha sonora composta com cuidado. Em dado momento, aquela pequena trama transcende sua proposta e evoca sentimentos inerentes ao convívio familiar. A satisfação advindas de rostos ingênuos. É um mise en scene elaborado com o real intuito de emocionar e fazer lembrar de uma época praticamente esquecida. E o arrebatamento definitivo se faz presente ao contemplarmos as cenas verdadeiras de uma das apresentações dos Skladanowsky surgirem naturalmente dentro do filmete. Bonito de ver.

O diretor Wim Wenders é visto como um dos realizadores europeus mais fascinados pelo cinema norte-americano. E o próprio não esconde essa admiração. Contudo, em Um Truque de Luz, ele volta aos primórdios de sua terra natal e relembra e homenageia esquecidos propulsores dessa sedutora arte que é o cinema. E também concebe uma pequena e singela obra-prima.

- Um Truque de Luz (Die Gebrüder Skladanowsky), de Wim Wenders, Alemanha, 1995.

Cotação:

Sobre Celo Silva:
Celo Silva

Escreve sobre cinema desde 2011. E procura estudar tanto os mestres clássicos quanto os vanguardistas. Do artístico ao mais delicioso divertimento pipoca. Pensa que o cinema é democrático e há espaço para todos os aspectos, tendências e movimentos.


Comentários
3 Comentários

3 comentários :

  1. Não conhnecia a historia de irmãos Skladanowsky. Valeu a dica.

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  2. Ótimo texto e valeu mesmo pela dica. Não conhecia esse documentário de Wenders. Precioso para qualquer interessado em cinema! Abraço e parabéns pelo Dia dos pais!

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    1. Sem dúvida, Fábio, é mesmo uma trabalho precioso. Abraço, meu camarada!

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